
Odeia-me, portanto; agora, se é preciso:
Agora, em tudo, o mundo insiste em contrariar-me;
Não me causes mais tarde um súbito prejuízo,
Une-te logo à sorte cruel, vem humilhar-me.
Quando minh'alma houver fugido ao meu tormento,
Não surjas no último escalão de dor vencida:
Não dês manhã de chuva à noite com seu vento,
A fim de prolongar derrota decidida.
Se me deixares, não me deixes só no fim,
Quando se houver cumprido tanta dor menor;
Vem no primeiro ataque: eu sofrerei assim,
De plano, o que a fortuna oferecer de pior.
E outras formas de dor, que ora parecem dor,
Junto de tua perda não terão tal cor.
(William Shakespeare)
Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga