

Se não fosse esta certeza que nem sei de onde me vem, não comia, nem bebia, nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto, no mais escuro que houvesse, punha os joelhos a boca e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes do ingénuo adolescente, a chuva das penas brancas a cair impertinente, aquele incógnito rosto, pintado em tons de aguarela, que sonha no frio encosto da vidraça da janela, não fosse a imensa piedade dos homens que não cresceram, que ouviram, viram, ouviram, viram, e não perceberam, essas mascaras selectas, antologia do espanto, flores sem caule, flutuando no pranto do desencanto, se não fosse a fome e a sede dessa humanidade exangue, roía as unhas e os dedos ate os fazer em sangue.
(António Gedeão)
A VIDA
A coisa mais injusta na vida é a maneira como ela acaba.
A nossa existência deveria justamente começar pela morte.
Os primeiros anos seriam passados num lar de terceira idade, até sermos expulsos por sermos novos demais.
Alguém nos oferecia um relógio de ouro e um Ferrari e íamos trabalhar durante quarenta anos,até sermos suficientemente novos para nos reformarmos.
Aí desatávamos a experimentar drogas leves,álcool e muito sexo até ficarmos miúdos.
Nessa altura poderíamos começar a brincar todo o dia e a gozar o facto de não termos qualquer responsabilidade.
Finalmente, chegados a bebés, voltávamos para o conforto da barriga da mãe,gozávamos um magnífico banho de imersão durante nove meses e acabávamos com um
orgasmo...