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Nome: Kris
Idade: 26 anos
Onde Mora: algures em Lisboa...
Contacto: kristyyna@sapo.pt

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"Sê paciente, espera


que a palavra amadureça


e se desprenda como um fruto


ao passar o vento que a mereça."

 

(Eugénio de Andrade)



- Postado por: Kris às 19h15
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 Elogio ao Amor Puro

"Há  coisas  que  não  são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para  dizer  e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser,  por isso,  incompreensível.  A  culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza.
Serei muito claro.
Eu  próprio  percebo  pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.O que quero  é  fazer  o  elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.  Já  ninguém  quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma  razão. Hoje  as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque  se  dão  bem  e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato,  por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje  em  dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem  planos  e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.
Reúnem-se,  discutem  problemas,  tomam  decisões.  O  amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão  prática.  O  resultado  é  que  as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu  quero  fazer  o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente,  do  único  amor  verdadeiro  que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca  vi  namorados  tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.  Incapazes  de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores  de  bicas,  alcançadores  de  compromissos, ananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já  ninguém  se  apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza,  o  desequilíbrio,  o  medo,  o  custo, o amor, a doença que é como um cancro  a  comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma  coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro  da  tortuosa  estrada  da  vida,  o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio  esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.
Para  onde  quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice,facada, abraços,  flores.  O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da  serenidade.  Amor  é  amor. É
essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode  como não  pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos  amar,  para  nos  levar  de  repente  ao céu, a tempo ainda de  apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O  amor  é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A"vidinha" é  uma  convivência  assassina.  O  amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe.
Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É  a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não  compreende.  O  amor  é uma verdade. É por isso que a ilusão é  necessária. A ilusão é bonita, não faz mal.
Que se invente e minta e sonhe o  que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é
mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.   Ama-se   alguém.  Por  muito  longe,  por  muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia  e  durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não  é  para  perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder.
Não  se  pode  resistir.  A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira,  o  amor  não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la  também. "

Miguel Esteves Cardoso 



- Postado por: Kris às 10h49
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"Poderia hoje dizer-te uma palavra


Mas a voz não me deixou


Poderias hoje ter-me dito uma palavra


Mas não foste capaz.


Há também silêncios que fazem sangrar,


A mais sensível e profunda ferida interior."

 

(Maria do Céu Costa)

 



- Postado por: Kris às 11h41
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"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.


Caiu pela escada excessivamente abaixo.


Caiu das mãos da criada descuidada.


Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça

no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!


Tenho mais sensações do que tinha quando me

sentia eu.


Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho

por sacudir."

 

(Álvaro de Campos)



- Postado por: Kris às 14h43
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Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida.
Como outra coisa qualquer,
Como esta pedra cinzenta
Em que me sento e descanso,
Como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
Como estes pinheiros altos
Que em verde e oiro se agitam,
Como estas aves que gritam
Em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
É vinho, é espuma, é fermento,
Bichinho alacre e sedento,
De focinho pontiagudo
Que fossa através de tudo
Num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor é pincel,
Lare, fuste, capitel,
Arco em ogiva, vitral,
Pináculo de catedral,
Contraponto, sinfonia,
Máscara grega, magia,
Que é retorta de alquimista,
Mapa do mundo distante,
Rosa-dos-ventos, Infante,
Caravela quinhentista,
Que é Cabo da Boa Esperança,
Ouro, canela, marfim,
Florete de espadachim,
Bastidor, passo de dança,
Colombino e Arlequim,
Passarola voadora,
Pára-raios, locomotiva,
Barco de proa festiva.
Alto-forno, geradora,
Cisão do átomo, radar,
Ultra-som, televisão,
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida
Que sempre que um homem sonha.
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.

(António Gedeão)



- Postado por: Kris às 19h47
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