

Quando acordamos dos nossos sonhos
nem nos apercebemos que a vida que deixámos
já nem existe…

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade)


Nas flores está o verdadeiro sentido do Amor.
Quem tentar possuir uma flor, verá a sua beleza
murchar.
Mas quem apenas olhar uma flor num campo,
permanecerá para sempre com ela.
(Paulo Coelho)


Eu hei-de ser flor, e cheiro, e dor,
Hei-de ser fumaça, palavra e luz.
Hei-de ser magoa, lembrança… ferida,
Mas não hei-de ser nunca… folha caída…
(Virgínia Pedras)

MEU MUNDO...

O meu MUNDO não é como o dos outros,
quero demais, exijo demais,
há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
pois estou longe de ser uma pessimista.
Sou antes uma exaltada, com alma intensa,
violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está,
que tem saudades...
sei lá de quê!
(Florbela Espanca)

A solidão em perspectiva

É exactamente porque não há solidão que dizes que há solidão.
Imagina que eras o único homem no universo.
Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»?
Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia».
Só há solidão «porque» vivemos com os outros...
(Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar')



Não sou o dono da verdade, mas sou o dono de
minha razão…
Não sou todas as coisas, mas sou qualquer coisa
que vive em mim…
Não sou o universo de ninguém, mas sou o
náufrago de minh’alma.
(Rami Ali Chehade)
SENTIR
- Ensina-me a sentir - disse ele.
- Não queiras sentir - disse-lhe eu - Sentir queima. Sentir seria bom se tu fosses forte, mais forte que todos os outros. Prefiro ensinar-te a dançar.
E ensinei-o a dançar na vida.
Dançava com violência quando via morte ou ódio.
Dançava suavemente depois de fazer amor.
Dançava até adormecer quando via tristeza ou angústia.
Dançava e nada lhe tocava o coração.
E nunca se sentiu queimado. Nunca foi prisioneiro de um sentimento.
Nunca gozou da plenitude da paixão, mas nunca sofreu o incómodo da tristeza profunda, que não larga o espírito, que corrói.
Não o ensinei a sentir, porque eu sinto demais.
Não sei se fiz bem.
Ele não vive intensamente.
Sou muito feliz e muito infeliz.
Sem o saber, ele é apenas feliz.
E como não sabe, talvez não seja nada.
Ou talvez não exista...

(Este texto foi-me enviado por e-mail, por uma pessoa que visitou o meu blog. Obrigada Ana.)

Do que se foi

Enganas-te, profundamente,
Se achas que o que se vai,
Se volta,
Será o mesmo que deixaste.
Ao voltar, terás, do que se foi,
Um pouco mais
Ou menos um pouco
Mas jamais a identidade perfeita
Da tua lembrança ida.
(Armindo Lima da Silva)


SONHO

Se algum dia, esmagada pelo tédio,
eu te pedir o Sol como remédio à minha inquietação,
sorri como se eu fosse uma criança,
e não digas que não.
Se algum dia, em noites de platina,
eu te pedir a Lua que ilumina do céu a nossa rua
e me deixa extasiada, boquiaberta,
as minhas mãos nas tuas mãos aperta
e promete-me a Lua!
E se ainda, perdido no horizonte,
o meu olhar partir de monte em monte e apetecer o mar,
tu que sabes, vês e podes tudo,
abrindo tuas asas de veludo,
finge que o vais buscar!
(Virgínia Victorino)